sexta-feira, 12 de novembro de 2010


 

A LINGUAGEM DE MOURAZ

De entre os elementos mais marcantes da identidade cultural do povo de Mouraz destacam-se regionalismos de natureza lexical, resultantes de um processo gradual de alterações semânticas, ou decorrentes da conservação de vocábulos antigos que noutras regiões do país foram sendo abandonados. Aquele processo foi determinado pelo isolamento a que as populações locais estiveram sujeitas até ao século passado, devido à falta de meios de comunicação e de transporte, e também pelo seu baixo nível de escolarização. São estes factores, aliados às diferenças históricas de tutela e de organização administrativa, a que já fizemos referência em outros capítulos, que explicam as grandes diferenças a nível fonético que ainda há poucas décadas se notavam nos modos de falar das populações vizinhas de Tonda, Vila Nova da Rainha e Nagosela, em relação às de Mouraz. Por exemplo, as palavras fogo, sachola, mesa e dentro, que em Mouraz se pronunciavam de forma regular, as gentes daquelas outras freguesias pronunciavam “fôago”, “sachuola”, “miesa” e “dientro”.
São inúmeros os termos e variantes do falar próprio de Mouraz utilizados na linguagem corrente local, na sua maioria corruptelas, que têm vindo a cair em desuso sobretudo ao longo das últimas três a quatro décadas do século XX.

In Mouraz História e Memórias, António F. Dias de Almeida


MOURAZ - UM FALAR PRÓPRIO

(...) Encontramos ainda palavras e expressões de uso regional muito localizado, algumas das quais usadas exclusivamente pela população de Mouraz, sendo outras também usadas em terras vizinhas: enregar e desenregar (iniciar e terminar o trabalho); moiçó (moela de galinha); carcódia ou carcódoa (casca de pinheiro); crabelho (trinco em madeira para portas e cancelas); escardiçar (remexer, escardilhar); abesar (habituar); desabesar (desmamar, desabituar); clutra (parte cimeira da copa de uma árvore); sarroada (queda de uma pessoa); estardalhada (estardalhaço); sacoto (animal sem cauda); pinchavelho (pequena peça metálica usada para prender uma porta mantendo-a fechada); abigoiro (vespa); pêga berradeira (gralha); brabo môfo (maçã bravo de esmolfe); trobejão (trovão); desimbidar (desconvocar); mandronga (amante); capulo (parte interior da espiga do milho); rasoiro (pau redondo e liso que se fazia deslizar por cima das medidas para tirar o grão em excesso); toiço (vara grossa que constitui o prolongamento dianteiro do carro de bois); triçogo (último leitão de uma ninhada); estronca albardas (desajeitado); de estroncão (à força e sem jeito); somítico (avarento); bolêtra (bolota); grazina (dresine - pequena automotora usada para inspecção da linha do comboio); cadraço (bagaço de uvas); fleima (fleuma; aguardente não rectificada); bácaro (porco); escavaluar (andar aos saltos); leituga (planta cujo líquido leitoso era usado para curar os cravos); cigorêlha (círculo desenhado no chão para o jogo do pião); pingadeira (menstruação); ingilhado (pessoa fraca); dar a quinhão ou dar ó ganho (ceder um animal para alguém criar dividindo os lucros); chibarreira (cabra com o cio); galiqueira (doença venérea); rela (pessoa faladora); cobrêlo (irritação da pele); andador (homem que percorre as ruas das povoações a anunciar com uma campainha o falecimento de um morador); olhar por (tomar conta, cuidar de); costilo (armadilha de arame para caçar pássaros); aldrabe (ferrolho de madeira para fechar portas); réstia (entrançada de cebolas ou de alhos para pendurar e armazenar); faxões (feixes de vides); entrementes (entretanto); balhelhas (pessoa com fraca apresentação); augado (frustrado por não obter algo desejado); inganchar (cruzar os dedos mindinhos de um rapaz e de uma rapariga para “andarem à reza” durante o período da Quaresma); arrepicar (tocar os sinos); escaravelhar (girar irregular do pião); questoso (saboroso); inchaimel (pessoa com aspecto de pouca saúde); cebêlha (sardinha pequena); erguer (separar a moínha do grão); acoitar-se (abrigar-se da chuva); desencarrascar (tirar casca ao pinheiro para extracção do pez); nôcha (círculo desenhado no chão para o jogo da bilharda); inochar (colocar a bilharda no círculo); bonsarás (homem cordato); de bô bico (nada esquisito nas comidas); assegundar (repetir o prato); burisco (boi que numa parelha ocupa o lado esquerdo); castanho (boi que na parelha ocupa o lado direito); sacafundo (rede de pesca em forma de saco); arranca da batata (o acto de arrancar); estrobilho (aquele que estorva); caixeiro (merceeiro, taverneiro); rêpa (tira de cabelo comprido); à doca (ao calha); amantizado ou amigado (em união de facto); caganátia (girino; excremento de ovelhas, cabras e coelhos); tirabal (tubo feito de pau de sabugueiro usado como brinquedo para projectar bagas de loureiro); escanuvada (chuvada); bebáuga (pessoa indolente e sem iniciativa); piadito (vestuário apertado); falar cioso (falar com pronúncia de Lisboa); andar cheia (estar prenha); andar ao dia fora (trabalhar para outrem); torresmo do banco (excremento expelido pelo porco no acto da matança) e corbacha (corvo).

 (...)Outros termos e expressões são utilizados pelas gentes de Mouraz com um significado que não o verdadeiro. Por exemplo a palavra tortulho, que em botânica é a designação dos míscaros amarelos e cinzentos e, de um modo mais geral, de todos os cogumelos antes de abertos, em Mouraz refere-se a uma espécie concreta de cogumelo de pé alto e de chapéu largo. Para designar um tortulho ainda fechado a população local utiliza o termo caralhoto. Também com significados diferentes são usadas as palavras entulho (parte mais sólida e grossa da sopa); biqueiro (esquisito na comida); punheta (bacalhau cru desfiado, com azeite, vinagre e alho) (...)

In Mouraz História e Memórias, António F. Dias de Almeida


(...)Certas expressões características da linguagem que se falava em Mouraz na primeira metade do século passado, como as que apresentamos de seguida a título de exemplo, também foram caindo em desuso, sendo muitas delas praticamente desconhecidas na actualidade: 

  • Ando numa sisteforma por bia dum dente cum tocas ando sempre doente por causa de um dente cariado.

  • Ando curto da bista, o tempo tába inboltado, num bia nada ò redol e tumbei de calhostras vejo mal, o céu estava carregado, não via nada à minha volta e caí de costas.

  • Dei uma tumpeirada cand’ia im cata do mê bácaro bati com a ponta do pé numa pedra quando ia à procura do meu porco.

  • Bonda ! Bota pra cá as binte seis notas. Ànum passado balia dugas bezes mais basta! dá-me os dois mil e seiscentos escudos. No ano passado valia o dobro.
                                                         (...)



In Mouraz História e Memórias, António F. Dias de Almeida

Sem comentários:

Enviar um comentário